postado por Rafaella Silveira no dia 01.05 arquivado em #beyoncé

LEMONADE de Beyoncé é preenchido por imagens e artes impressionantes, hoje iremos falar sobre uma das cenas mais importantes no álbum visual, que ocorre no vídeo da canção “Love Drought”.

Muito foi dito sobre a influência que o disco recebeu do filme Daughters of the Dust da Julie Dash, mas pouco foi falado nessas discussões sobre como a história da terra Igbo é central em Daughters of the Dust e como a história da terra Igbo – um ato de resistência em massa contra a escravidão – também aparece de forma explícita em “Love Drought”.

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Para quem não sabe, terra Igbo é a localização de um suicídio em massa de escravos que ocorreu em 1803 na ilha St. Simons, Georgia. Conforme a história, um grupo de escravos Igbo se revoltaram e tomaram o controle de seu navio de escravos, aterrado em uma ilha, ao invés de se submeterem a escravidão, começaram a marchar para a água enquanto cantavam em Igbo, por sua vez, se afogando. Todos eles escolheram a morte ao invés da escravidão. Foi um ato de resistência em massa contra os horrores da escravidão e se tornou uma lenda, especialmente entre as pessoas de Gullah que vivem perto do local da terra Igbo.

Não é apenas a história do povo Igbo um dos temas chaves do filme de Julie Dash, o qual influenciou LEMONADE, mas imagens também são centrais no vídeo “Love Drought”. Nele, Beyoncé marcha em direção à água, seguida por um grupo de mulheres negras todas de branco com tecido preto na forma de uma cruz na frente de seus corpos. Elas marcham progressivamente mais fundo na água antes de pararem para erguerem suas mãos em direção ao pôr do sol.

O ato de Beyoncé e seu grupo de mulheres negras deliberadamente erguerem as mãos enquanto na água em direção ao pôr do sol mostra como a resistência da terra Igbo foi mitificada em várias culturas afro-americanas como o mito “Caminhada na Àgua” ou “Africanos Voadores”. Na ultima lenda, os escravos Igbo andaram para dentro d’água e então voaram de volta para a África, salvando-se por sua vez.

O vídeo como um todo acontece em uma paisagem pantanosa, combinando descrições folclóricas afro-americanas da localização da terra Igbo. Além disso, é tudo mixado com imagens de Beyoncé fisicamente ligada em cordas e resistindo à tração, que expressam a escravidão, resistência e eventos da terra Igbo.

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Abaixo está o mito de “Africanos Voadores” da terra dito por Wallace Quarterman, um homem afro-americano nascido em 1844 que foi entrevistado por membros do Projeto Federal de Escritores em 1930:

“Você não ouviu falar deles? Bem, naquela época Mr. Blue era o supervisor e… Mr. Blue desceu uma manhã com um longo chicote para chicoteá-los muito… De qualquer maneira, ele os chicoteou muito e eles se uniram e emperraram aquele navio no campo e então… foram em direção ao céu e se transformaram em urubus e voaram de volta para a África… Todos sabem sobre eles.”

Vendo Beyoncé e um grupo de mulheres negras marchando em direção a água e erguendo as mãos coletivamente em direção ao pôr do sol soa como a ultima interpretação da história da terra Igbo, em que escravos voam em direção à liberdade.


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